Mercado editorial: Companhia das Letras assume controle da Zahar

Mais uma consolidação no mercado editorial brasileiro, que enfrenta significativa queda nas suas vendas (leia mais abaixo no texto).  O Grupo Companhia das Letras assume 100% do controle da editora Zahar, ampliando para 17 o número de editoras que engloba a partir de agora. Ambas empresas já atuavam em sintonia  no mercado: durante cerca de 30 anos, a Zahar distribuiu os livros da Companhia das Letras no Rio, enquanto a editora paulista distribuía os livros da Zahar entre as livrarias de São Paulo. Por muito tempo, as duas editoras também dividiram o mesmo estande nas Bienais Internacionais do Livro.

Coleção de Jacques Lacan, da Zahar

A conceituada e tradicional Zahar foi fundada no Rio de Janeiro em 1956 por uma das figuras mais simbólicas do mercado brasileiro, o editor Jorge Zahar. Hoje, é dirigida por Ana Cristina Zahar, filha de Jorge; pela neta Mariana Zahar; e Ana Paula Rocha, diretora de operações.

Pioneira na publicação de livros dedicados às áreas de ciências humanas e sociais no Brasil, a Zahar chega ao Grupo Companhia das Letras com títulos de enorme sucesso nos últimos anos, além de um respeitável acervo de clássicos universais, de títulos com vocação para estudos universitários e de obras infantis – uma das áreas prioritárias para o Grupo Companhia das Letras.

Jorge Zahar foi um dos mentores de Luiz Schwarcz, CEO e fundador – junto com a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz – da Companhia das Letras, no seu processo de formação como editor e publisher.

Coleção Freud, da Companhia das Letras

Juntos, os catálogos de ambas editoras somam mais de 6 mil títulos e agora se complementam. Como exemplo, a Companhia das Letras vem editando as obras completas de Sigmund Freud, enquanto a Zahar publica a do francês Jacques Lacan; a Companhia das Letras publica as obras de ficção do prêmio Nobel de literatura Thomas Mann, a Zahar publica sua obra de não ficção; as duas casas publicam os clássicos da literatura universal em traduções primorosas, com notas e aparatos que auxiliam a compreensão do livro, mas a editora paulista os lança em edições mais acessíveis pelo selo Penguin-Companhia e a editora carioca em versões graficamente sofisticadas, com capa dura. De acordo com a Companhia das Letras, há leitores para as duas versões . No segmento infantil, a editoria afirma existir um “diálogo rico e criativo”  entre os livros da Companhia das Letrinhas e os da Pequena Zahar.

Para Luiz Schwarcz, “nos últimos tempos, embora a Companhia tenha crescido e decidido ampliar a comunidade de leitores com os quais falamos, a vocação de ser em essência uma editora de catálogo, de livros de longa duração, só foi aumentando. E é em cada um desses títulos, que querem sobreviver ao tempo, que a imagem de Jorge Zahar está espelhada e mantida. Ele foi o grande mestre desse olhar de vida longa aos livros, mestre dignamente representado por duas gerações de sua família, por Jorginho no início, e desde sempre e até agora por Cristina e Mariana. Não tive honra maior em minha vida do que a que se realiza neste momento: a de ter sido escolhido para continuar esse legado que mudou a história do livro no Brasil. Espero sinceramente estar à altura”.

Nas palavras de Ana Cristina Zahar e Mariana Zahar, “Zahar e Companhia das Letras têm uma longa história de parceria, inclusive na distribuição comercial dos títulos de ambas as casas, e sempre partilhamos o mesmo padrão ético. Depois de mais de sessenta anos de trajetória independente, estamos confiantes que o Grupo Companhia das Letras é o melhor para abrigar e manter com qualidade um catálogo de tamanha relevância no segmento de não-ficção, os títulos infantojuvenis da Pequena Zahar e os Clássicos Zahar”.

Para Markus Dohle, CEO internacional da Penguin Random House (que detém 70% do Grupo Companhia das Letras), “É um grande privilégio para a equipe da Companhia das Letras e da Penguin Random House termos sido escolhidos para continuar o legado da Zahar, uma das editoras mais conceituadas do Brasil. Como em todas as nossas aquisições, abraçamos essa responsabilidade com o comprometimento de preservar a independência editorial da casa e seus editores, construindo com base na rica história da Zahar o melhor futuro para a empresa. Meus cumprimentos ao Luiz Schwarcz e desejo boas-vindas calorosas a toda a equipe da Zahar. Todos na Penguin Random House estamos ansiosos para trabalhar com nossos novos colegas nesse capítulo animador”.

O processo de integração entre as duas editoras será conduzido por um comitê que contará, por parte do Grupo Companhia das Letras, além de Luiz Schwarcz, com a colaboração do publisher Otávio Costa e do editor Ricardo Teperman; pelo lado da Zahar, participarão as diretoras Ana Cristina Zahar (que permanecerá como consultora editorial após o processo de integração), Mariana Zahar e Ana Paula Rocha. O Grupo Companhia das Letras publicará ao todo – entre edições regulares e especiais – 240 títulos em 2019, e a Zahar, que continuará tendo sua sede no Rio de Janeiro, trinta títulos.

Com a chegada da Zahar, o Grupo Companhia das Letras passa a ter  os seguintes selos editoriais: Companhia das Letras, Objetiva, Zahar, Alfaguara, Suma, Paralela, Penguin-Companhia, Companhia de Bolso, Portfolio-Penguin, Fontanar, Companhia de Mesa, Quadrinhos na Companhia, Seguinte, Companhia das Letrinhas, Pequena Zahar, Claro Enigma e Boa Companhia.

Setor vive crise


No ano passado, considerando apenas as vendas ao mercado, o mercado editorial brasileiro apresentou uma queda nominal de 6,7% em relação a 2017, que em termos reais significa uma queda de 10,1%. Consequentemente, a produção de livros também sofreu forte impacto, uma queda de 11% na quantidade de exemplares produzidos, que em termos absolutos significa uma redução de 43,4milhões em relação a 2017.

Em 2018, o setor editorial brasileiro produziu 350 milhões de exemplares, vendeu 352 milhões e faturou R$ 5,12 bilhões. Os dados são da edição da Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro ano-base 2018, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), a pedido do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e da Câmara Brasileira do Livro (CBL).
O estudo, que mapeou a performance do setor editorial e de seus quatro subsetores1 em 2018, ouviu 202 editoras do país, sendo 185 emparelhadas ao ano anterior, o que representa 68% do setor editorial em termos de faturamento. Pela primeira vez desde o início do trabalho da FIPE, os dados estão sendo divulgados no mês de abril do ano subsequente.

A pesquisa mostra que foram editados 46.828 títulos em 2018, uma queda de 4,2% em relação ao ano anterior. Desse total, 14.639 correspondem a novos ISBNs, percentual 9% inferior à 2017. Estes números estão diretamente relacionados à crise das duas maiores redes de livrarias do País, pois indicam uma dificuldade dos editores em distribuir novas obras.

Considerando o faturamento total, incluindo as vendas para o Governo, o setor editorial apresentou queda nominal de 0,92%, o que significa um decréscimo real de 4,5%, considerada a variação do IPCA de 3,75% no período. É o quinto ano consecutivo de queda real em termos reais.

As editoras dos subsetor de Religiosos tiveram o melhor resultado: um crescimento nominal de 1,1%, que significa um decréscimo real de 2,6%. Já o subsetor de Didáticos apresentou queda nominal de 5,6% (9,1% real) e o subsetor Obras Gerais apresentou queda nominal de 3,3% (6,8% real). O subsetor CTP (Científicos, Técnicos e Profissionais) teve o pior resultado, um recuo de 17,33%, que corresponde a um decréscimo de 20,3% em termos reais. No período de 2014-2018, o subsetor acumula uma queda real de 45%.
  

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