#TemCopa


Ir a um único jogo da Copa já é inesquecível







Eu vi, acompanhei, torci, chorei e vibrei por oito Copas do Mundo, sem nunca ter presenciado um jogo sequer ao vivo. Mas isto acabou neste 23 de junho, no Itaquerão, ou Arena São Paulo como quer a Fifa, ou Arena Corinthians, como anunciou o locutor no local. Fui ver a partida entre Holanda x Chile, numa disputa pela liderança do grupo e para ver de perto um dos dois rivias que poderiam pegar o Brasil na próxima fase.
Antes de tudo, esclareço que estou muito à vontade para comentar esta experiência sem nenhum tipo de amarra: comprei meu próprio ingresso no site oficial da Fifa – e também o do meu filho que, aliás, pagou meia-entrada de estudante, conforme lhe assegurou a Lei Geral da Copa -, não ganhei nada de nenhum patrocinador e também não sou vinculada a nenhum órgão de governo ou partido político. Isto dito, estou livre para contar como é ir a um jogo em São Paulo, esta cidade onde nasceu e esparramou o protesto que desencadearia o nebuloso movimento #nãovaitercopa.
Primeiro de tudo, o metrô funcionou perfeitamente, numa segunda-feira, horário comercial, muito bem sinalizado, com condutores anunciando o nome das estações inclusive em inglês. Já na linha azul norte-sul, rumo à baldeação para a linha vermelha leste-oeste, começaram a entrar os primeiros torcedores: do Chile, muitos; da Holanda, alguns; do Brasil,  sempre! Era por volta das 10h da manhã, e a cada estação, os torcedores uniformizados entravam e o sorriso contagiava até quem já seguia cansado àquela hora da manhã na sua própria rotina. Descemos na estação central, Sé, e seguimos como que em comboio à outra linha, e os chilenos já começavam a cantar. Incrível como cantam e vibram o tempo todo.  Ao longo do caminho mais holandeses e brasileiros com a amarelinha iam chegando.



Meu assento no estádio era no lado oeste, portanto, o ingresso indicava que o acesso era pela estação Arthur Alvim, uma antes da última da linha, a de Itaquera. Mas as placas no metrô já tinham me alertado disso, em português e em inglês. O condutor do trem também avisou: quem tem ingresso para o lado Oeste, desça na próxima estação. Enfim, tudo muito bem sinalizado. Seguranças ao longo de todas as estações observavam todo o trajeto.







Ao descer na estação Arthur Alvim, muitos turistas desolados dos dois lados (Chile e Holanda) seguravam plaquinhas loucos para comprar ingresso: "I buy tickets" estampavam as cartolinas. Certamente pagariam um bom valor. Pelo meu ingresso, pelo qual paguei meros R$ 60,00, me ofereceram dias atrás US$ 1 mil. Imagine! 
Nenhum vendedor à vista, nenhum cambista oferecendo ingressos.
Na saída, a primeira boa surpresa. O caminho até o estádio, percorrendo a rua do comércio local, já lotado àquela hora, estava todo cercado, formando um corredor de segurança para os turistas. Ao longo do percurso, de cerca de 1 km, policiamento, instrutores, guias com alto-falantes iam informando as pessoas. Os primeiros ambulantes credenciados vendiam cerveja a R$ 5 (o mesmo preço que paguei nas ruas dos bares na badalada Vila Madalena).  Pelo caminho, os turistas vibravam muito e, sob um dia lindo de sol, deu pra apreciar a beleza simples do bairro, os conjuntos residenciais populares, as casas de alvenaria simples sem acabamento de pintura decoradas com bandeirolas do Brasil e fitinhas verde-amarelas.  








  
As paredes laterais dos prédios, as chamadas empenas, estavam decoradas com mensagens da Copa – e do patrocinador Coca-Cola. São peças publicitárias imensas em grafite, coloridas, bem feitas. Mas que não são permitidas em mais nenhum local da cidade de São Paulo por conta da Lei Cidade Limpa em vigor.  Esse foi um ponto de estranhamento, mas que também foi cláusula da Fifa na sua negociação para trazer o torneio para cá.
Enfim, avistamos o estádio. Belo, imponente, clean e moderno. Tudo funciona na entrada, desde as imensas filas que andam rapidamente, até o raio-X (que maravilha) que escaneia nossas bolsas e corpos como no embarque dos aeroportos. Sem poder entrar com bolachas e água (fomos avisados sobre isso), passamos rapidamente pelas catracas, rápida leitura de ingressos e pronto: entramos na festa.
Sim, porque o entorno do estádio é repleto de instalações dos patrocinadores, com música, movimentação, promoções. Há grupinhos tirando fotos, todo mundo disputando os torcedores mais fantasiados para fazer os seus “selfies’ e fotos das crianças.
Nunca vi levarem tanta criança em jogo de futebol: no colo, no carrinho. Certamente, o registro será apenas na foto, porque nenhuma criança com menos de 5 anos vai guardar aquilo na sua cabecinha preocupada ali somente em brincar com o boneco Fuleco.




Mas quem quer ficar perdendo tempo? A gente só pensa em entrar no estádio, encontrar o lugar marcado. Dentro, os quiosques de bebidas e comida, às fartas. Ali, no intervalo, eu gastaria mais $ por dois cheeseburgers duplos e duas Cocas do que paguei pelo ingresso do meu filho!
Um pulo no toalete antes, pra ficar tranquila no assento depois. E, para minha surpresa, tinha até papel higiênico e sabonete líquido cheiroso no banheiro. E olha que já paguei ingresso muito caro de show internacional e festival de rock pra encarar fila, desorganização e banheiro sem  papel nem descarga!  No banheiro feminino, o mal de todos os estádios de futebol locais se repete: não colocam espelhos. Certamente em virtude de alguma medida de segurança.  
Enfim, plateia educada, cada um no seu lugar. O meu já estava ocupado, porque a pessoa tinha lido o próprio ingresso errado. Visão perfeita de todo o estádio, 
na sua maior parcela ocupado pela torcida de vermelho. Havia grandes pontos isolados de camisas laranja, cor da Holanda. Total de público: 62.996 pessoas no estádio.






No mais, estrutura de mega-show: dois telões de ótima resolução, sistema de som com qualidade altíssima. Em 15 minutos, tudo estava lotado. Claro que o 3G do celular não funionava mais - tampouco funcionara em outras concentrações com maior público, como os festivais Rock in Rio e Lollapalooza, por exemplo.  O locutor da Fifa, com aquela voz bonita de estádio, anuncia os times, entram as seleções de Chile e Holanda , tocam os hinos. E o resto foi o que todos viram pela TV. Aliás, 2x0 pra Holanda. E vi o Robben em ação. Bastou.
Eu não assisti a só um jogo, vivenciei uma experiência incrível num espetáculo global, curtido minuto a minuto. Todo mundo sentado ali sabia que estava em algo importante, único, as pessoas conversam entre si, xingam um pouco o jogador do Palmeiras que entra em campo (Valdívia, do Chile).
Já passei dos 40 anos, provavelmente não verei outra Copa no Brasil, talvez nem em outro lugar. Pode ser que nem o meu filho, que está com os seus 18.






Na saída, tudo muito OK, sem tumulto, sem demora no transporte - com o adendo de que o metrô disponibilizava trens em saídas simultâneas. 





Perdoe-me pelo meu deslumbramento. Mas eu mereci ver esta Copa!




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