Faltou no "Encontro" de Fátima Bernardes?

Passada uma semana do programa que preenche a segunda metade das manhãs da Globo, o "Encontro com Fátima Bernardes" não terminou como começou. Chegou à 6a. feira com metade dos 10 pontos de média de audiência da 2a. feira - ou 5 pontos (cada ponto equivale a 60 mil domícílios com TV ligados na Grande São Paulo, a principal praça de medição e também o maior mercado do País). E isto, mesmo com um convidado de peso, como Ronaldo Fenômeno. O que acontece?
Bem, primeiramente considero que falta de audiência não significa a priori má qualidade de um programa. Pra mim por exemplo, o SNL de Rafinha Bastos na Rede TV! faz uma excelente entrega daquilo que promete - humor politicamente incorreto, sátira, nos moldes do original, bastante calcado em talentos individuais - , mas derrapa feio na audiência, mal atingindo 1 único ponto. Uma novela ruim de lascar sob todos os aspectos como "Fina Estampa", salva por alguns desempenhos individuais de interpretação, alcançava recordes de audiência nas noites da Globo.
Mas voltando a Fatima: a jornalista é carismática, talentosa, bonita e conduz bem o programa. A atração foi cercada de cuidados e investimentos na emissora, e conta com todo o suporte do departamento de jornalismo da Globo. Então, por que não está dando os resultados que se esperava?
Esta é a pergunta de 1 milhão de dólares, para a qual eu traço meus palpites.

Formato

Vi o programa todos os dias. E acho que, a despeito dos problemas já apontados na imprensa como cenário e iluminação ruins facilmente contornáveis, há um sério problema na concepção do formato.
Digo isso porque a atração não quer ser um programa feminino - embora o público alvo assim o seja - e também não quer se colocar como jornalismo. Ora, se quer fazer jornalismo + variedades, tem de fugir da forma consagrada pelo Fantástico nas noites de domingo, correto?
Sim, mas ao chamar para si em entradas ao vivo grandes nomes do Jornalismo da emissora, pelo menos nesta semana o programa parecia ser uma prévia pelas manhãs do telejornal que se vê às 13h e também à noite no Jornal Nacional. Se quer fazer jornalismo sem se parecer com os demais programas da casa, já há pelo menos uma fórmula de sucesso dentro da Globo para se inspirar: o Profissão Repórter consegue ser um jornalístico muito bem resolvido sem se parecer com os demais programas noticiosos. Portanto, para se firmar em programa jornalístico, precisa ter personalidade própria.

Desenho

Há algo que também incomoda na atração que é a mudança brusca de assunto. De uma hora pra outra, sem qualquer pausa ou aviso, vai-se de alhos a bugalhos, e embora Fátima trafegue confortavelmente de uma manchete à outra, como já fazia na bancada do Jornal Nacional, para o espectador a troca de discos não ocorre de forma suave. Ora, a Globo é mestra em separar assuntos. Sua vinheta na entrada e saída do comercial - o famoso plim plim - foi copiado mundo afora. Sem querer comparar mas já comparando, o já clássico TV Mulher, no mesmo horário nos anos 80, era craque em ter diversos quadros, todos muitíssimo bem pontuados.  



Populares

O formato  da atração aposta na presença física de populares no centro do programa. Fátima fica rodeada de pessoas "comuns" em cadeiras. Tais populares, entre um ou outro comentário da apresentadora e de seus jornalistas auxiliares, acabam dando depoimentos. Muitos depoentes são mostrados numa cadeira rodeada por espelhos, onde triplicam seu reflexo enquanto falam. 
Essa fórmula de dar voz ao público fazia sucesso no jornalismo dos anos 80, quando os repórteres de jornais impressos iam às ruas colher opiniões e publicavam quadradinhos com as fotos. Daí as pessoas compravam o jornal para se verem retratadas. O problema é que na TV tudo ganha uma outra dimensão. Que diferença faz uma opinião de um desconhecido postada no estúdio?
Se o espelho do "Encontro com Fátima Bernardes" tiver sido o programa de Oprah Winfrey, vale dizer que os populares que iam ali protagonizavam barracos memoráveis. E nessa seara do barraco em programa de auditório, sinto dizer, a Globo está chegando tarde demais. No passado, outras já o fizeram e com melhores resultados: das discussões inenarráveis nos programas de Márcia Goldsmith na Band à excelente Regina Volpato quando conduzia o Casos de Família, no SBT. 
Mas Oprah também fazia excelentes entrevistas no seu sofá - como a antológica conversa com um ensandecido Tom Cruise. Talvez falte um sofá a Fátima. E Oprah incentivou a popularização da literatura nos Estados Unidos como nem a Amazon faria depois.

Pauta

Também há a meu um outro problema: a execução da pauta.
Pauta é o que nós, jornalistas, chamamos de temas das reportagens. E os assuntos destes dias eram bons mas não foram felizes na sua realização. A começar pelo tema da semana, adoção, abordada sob pontos de vista pessoais demais, sem um retrato que desse a dimensão da causa, sem informação relevante, sem um panorama da situação. Veio uma imagem de um abrigo de crianças abandonadas em país muçulmano! A entrevista com a cantora Vanessa da Mata, mãe de três filhos adotivos, careceu de profundidade. Não houve qualquer viés novo.       
Uma reportagem sobre a ida de um grupo de amigos à Disney foi também difícil de assistir. Uma matéria sobre um pai ser contra o namoro da filha maior de idade com um professor universitário mais velho foi por demais constrangedora para ser assistida em pleno século 21 no Brasil.

Ronaldo

Por fim, nem Ronaldo salvou o programa. Sob a justificativa de se comemorar o aniversário do Tetracampeonato (18 anos), e também do Pentacampeonato (10 anos) da Seleção Brasileira, o futebol serviu mais mesmo para lembrar a cobertura de Fátima como repórter na Copa. A presença do jogador não redundou nem numa boa entrevista com ele, nem em um bom material sobre futebol e Copa.
Outra presença, a do garçon que deixou de ganhar R$ 600 mil na loteria por ter se recusado a entrar no bolão dos colegas da firma, poderia ter sido um material interessante. Ao lado do chefe, ele viu sua história submetida a uma enquete contra os próprios colegas. Ora, Fátima achou que os ganhadores lhe deviam uma "caixinha", e também induziu a plateia presente a tal pensamento, subvertendo toda a lógica dos bolões que todo mundo faz, onde a regra é clara: só leva o prêmio quem participa. Para salvar a situação, entrou no telefone ao vivo Luciano Huck, já convidando o garçon a participar de seu Caldeirão num próximo sábado. A verificar.
Enfim, o programa tem recursos e talento para melhorar. Precisa de um redesenho e de ideias melhores, porque as crianças fugiram para o SBT e suas mães ou desligaram a TV, ou mudaram de canal.    

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2 Comentários

lane leite disse…
Faltaram ao "encontro": um bom pauteiro, uma boa produção e sinergia com o público do horário...O programa está muito engessado ao modelo Márcia Goldsmith e sem identidade definida...Maior mico ! Um desafio entrar na seara que Ana Maria Braga reina ! ! !
Lane Leite disse…
Faltaram ao "encontro": um bom pauteiro, uma boa produção e sinergia com o público do horário...O programa está muito engessado ao modelo Márcia Goldsmith e sem identidade definida...Maior mico ! Um desafio entrar na seara que Ana Maria Braga reina ! ! !