Um Dorian Gray contemporâneo











Antes de começar este texto sobre a biografia autorizada de Steve Jobs, feita por Walter Isaacson (Companhia das Letras, 607pág. 2011) ao longo de dois laboriosos anos, é bom deixar claro: também sou fã de produtos Apple - tenho o iPad e pelo menos quatro iPods de todos os tamanhos e capacidades espalhados pela casa e só não tenho iPhone porque preferi um modelo de smartphone com sistema operacional aberto, o Android, e também com TV digital aberta. Portanto, não tenho qualquer prediposição a não curtir a Apple, e nenhum viés negativo diante da marca.
O livro é uma delícia de ser lido; afinal, neste mundo onde o culto às celebridades passa por saber e acompanhar tudo o que cerca sua vida pessoal, a obra disseca detalhes da intimidade e também da verve profissional de um personagem icônico do final do século XX e início deste XXI.
O autor - renomado jornalista de carreira e que dirigiu da Time à CNN - fez mais e 40 entrevistas para a sua elaboração. Ouviu por diversas vezes o próprio Jobs, seus familiares, amigos, pessoas com quem trabalhou, e até Bill Gates, por algumas vezes. Aliás, as descrições de conversas entre Jobs e o homem forte da Microsoft formam algumas das melhores passagens da biografia.
Profissionalmente, comecei a ouvir falar de Jobs quando ele estava fora da Apple. Ele foi demitido, uma vez, sim - , na segunda metade dos anos 80, quando investiu na Pixar, advinda dos estúdios de George Lucas e que sobreviveu por vários anos produzindo comerciais de publicidade (isto não consta da biografia) até lançar em meados dos 90 com a Disney a espetacular saga de Toy Story, modificando para sempre os conceitos de animação em Hollywood. Isto nos rendia várias matérias no caderno de variedades do jornal. Desde então, acompanhei vagamente as versões sobre o mito Jobs.
Mas foi apenas agora lendo a biografia que soube melhor a respeito do cabeça tecnológico da criação da Apple, o xará, Steve Wozniak. Também fui informada de que o Macintosh não foi um projeto original seu - o verdadeiro autor foi "espirrado" da Apple e depois caiu muito doente.

Apple, a marca

Porém, não se engane: você lê o livro e pensa que viu quase tudo sobre a vida de Jobs, mas na verdade você acaba de ler uma apologia da marca Apple. Tudo é contado de forma que se acredite que nunca houve a construção de uma marca como a da Apple, não havia lojas decentes de marca antes das Apple Stores, nem mesmo um veio de criatividade e inovação em qualquer outra bandeira. Ainda que Jobs dirigisse um Mercedes Benz, admirasse o design alemão, os produtos da Braun e o estilista japonês Issei Miyake.
Do começo ao fim da obra, toda e qualquer atitude questionável do biografado, ato deplorável diante de outras pessoas (subordinados ou familiares), desvios de caráter, falhas éticas no trato de questões universais - seja assumir um filho não desejado ou deliberadamente estacionar o carro em vagas exclusivas a deficientes físicos - acaba de um jeito ou de outro justificada sempre pela sua preocupação com a integridade e os valores da Apple, com seu apregoado cuidado com o consumidor. A busca pela perfeição era tanta que Jobs sequer conseguia comprar móveis para sua casa, dado seu alto nível de exigência.
Todo um trabalho incessante pelos produtos belos e perfeitos, que na visão de Jobs são na essência os mais simples ao usuário, permeia a descrição dos seus quase 57 anos de vida.
Carismático, Steve Jobs se via como uma pessoa especial, de alguma forma superior aos demais, e isto parecia lhe dar sempre salvaguarda para justificar alguns dos seus atos mais abomináveis. Também o biógrafo parece acreditar nisso, e a julgar por parte dos fãs e da imprensa ao longo da trajetória do co-fundador da Apple, Jobs era mesmo um ser iluminado, um gênio, um messias acima da vã humanidade. Para quem acredita nessa premissa, a leitura será um regozijo. Uma detalhada predisposição de Steven Jobs em ignorar os fatos em alguns momentos e também mentir é dada e sempre justificada por um estranho hábito de "distorção do campo da realidade" - em alusão à série clássica Jornada nas Estrelas.

Silicon Valley

Mas a leitura também vale para quem não vê as coisas dessa maneira. A obra traça interessante panorama histórico do desenvolvimento do mundo da informática, tecnologia e equipamentos de eletrônica por meio de personagens-chave desta região abençoada pelos deuses da TI que é o Vale do Silício. Não me espanta se começarem a surgir pacotes turísticos para visitar Palo Alto e Cupertino nas próximas férias ...
Steve Jobs é apresentado muitas vezes em toda sua crueza, na voz de quem passou por maus bocados com ele. Joan Baez, a ex-namorada, não doura a pílula. Jobs era um amante da obra de Bob Dylan e também ficou amigo de Bono.
Como executivo, ele tinha o poder de fazer os melhores talentos trabalharem com afinco 90 horas por semana, mas também não hesitava em promover demissões sem qualquer indenização. Quando do primeiro IPO da Apple, que tornou os trabalhadores originais do primeiro Apple na garagem de sua casa milionários da noite pro dia, Jobs não teve nenhum pudor em deixar sem opções de ações um amigo seu programador que também se dedicara ao projeto.

Convergência

Há uma incansável tentativa do autor em sempre reforçar a visão convergente de Jobs, que pregava a integração total entre o fabricante de hardware e software, de modo que uma mesma empresa dominasse todas as etapas do processo até o cliente final. Não, nunca isto é apresentando como uma visão monopolista, anticoncorrencial ou mesmo de controle absoluto por parte da Apple.
Tudo visaria sempre o bem maior ao consumidor. Sequer há a menção de que durante quatro anos o revolucionário iPhone só era oferecido por uma única operadora de telefonia dos EUA. Tampouco se fala das unidades fabris da marca terceirizadas na China, em condições tão degradantes que levavam operários ao suicídio.
Seja como for, a linha de atuação da Apple ditada por Steve Jobs tem sido vitoriosa. Jobs morreu em outubro último, deixando como legado uma empresa de US$ 300 bilhões - a marca mais valiosa do mundo, superando as rivais Google e Microsoft.
Por tudo o que se lê nesta bio, Steve Jobs personifica a máxima de que o fim justifica os meios. E se beleza e perfeição são os objetivos, tudo é válido. Oscar Wilde, há mais de cem anos, romantizou isso, e assim criou seu Dorian Gray.

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2 Comentários

Tiago disse…
Vou aguardar sua próxima critica quando sair a biografia do BILL GATES, aí quem sabe podemos falar um pouco de tecnologia.
lane leite disse…
Que texto gostoso de ler Didi!

Amei a referência a Wilde ! ! !