Amy!


Tudo já foi dito à exaustão sobre a morte trágica da cantora - mas que morte não é trágica quando se tem só 27 anos, meu Deus?!
Não faço aqui nenhuma crítica ou elogio à carreira curta da talentosa intérprete, muito menos vou falar da tal bobagem da "maldição dos 27 anos"!
Na verdade, deixo minhas impressões sobre o que dela vi em show ao vivo em São Paulo, no último mês de janeiro. E também faço um depoimento bastante pessoal sobre passar por situação similar sem ser celebridade num local chamado Londres.
Primeiro, o show que vi de muito perto da cantora no Anhembi. Sim, eu estava colada no palco, e o show não foi nada bom, dado o precário estado em que ela estava.
Lindíssima num figurino-chave, com vestido preto e branco à la Chanel, tubinho, de sapatilhas, o cabelo impecável com aquele coque no alto. Olhos puxados ao canto com forte traço preto. Mas Amy era magra, muito magra. Branca, de tão branca que víamos as amplas manchas roxas nas suas pernas e braços. O que seriam? Batidas nos móveis? Quedas bruscas da cama?
É de se espantar que alguém pudesse viajar de tão longe naquele estado. E a performance dela, propriamente dita, não se pode chamar de show. Porque Amy não conseguia cantar nada até o fim, tinha chiliquinhos no palco que resolvia em cochichos ao ouvido do senhor guitarrista de sua banda, uma agremiação competente porém insossa. A banda tentava segurar as lacunas que Amy deixava em branco no repertório. Dois backing vocals na verdade asssumiam mesmo os leading vocals na maioria das canções. E um deles, um negro de quase dois metros de vozeirão, rasgava o verbo para tentar segurar aquela enorme plateia ensandecida e boaquiaberta com os abandonos da cantora.
Durou menos de uma hora a apresentação. Amy por vezes dava pulinhos miudinhos no palco. Tinha o tempo todo à mão uma caneca de líquido misterioso, para o qual o público muito sem noção urrava e vibrava a cada subida à boca da cantora. Todos queriam ver um show, não importando se fosse mesmo à base da embriaguez.
Daí me pergunto que morbidez é essa que rege o fã. A decadência explícita do ídolo reveste-se de espetáculo! E que ganância mortífera essa do showbiz, de levar um artista às suas últimas consequências!
Eu já tinha visto Raul Seixas definhando do seu vício nos palcos no fim dos 80, em show que cambaleava ao lado de Marcelo Nova. Também vi Tim Maia fingindo que cantava nos seus últimos shows, alguns ao lado de Jorge Benjor, quando a fadiga já lhe era tão eminente - um infarto mataria o cantor logo depois.
A grande questão que fica é por que não se salvam os artistas que rendem tanto. A resposta óbvia é que eles não querem socorro. Só que ninguém em determinadas condições tem como pedir ajuda ou saber que dela necessita. O viciado é um doente e como tal precisa ser encarado. Não se trata de uma pessoa que escolheu ser assim, ela simplesmente cai no mal e sozinha não tem forças para sair.
Só para me ater ao caso Amy, vemos como a família agora tenta dar respostas. A única pergunta que eu teria a eles é se não havia alternativa senão deixar a artista à sua propria sorte, uma vez que ela visivelmente não tinha mais condições nem discernimento.
Sei que a cultura na Europa é diferente. Sei também que principalmente no Reino Unido, a pessoa viciada em qualquer tipo de droga é tida como dotada de livre arbítrio para decidir sobre continuar assim ou se tratar.
Aqui segue um depoimento muito pessoal. Caso você não goste deste gênero -afinal, testemunhais são mesmo muito pedantes-, sugiro interromper a leitura por aqui.

Tive eu mesma uma experiência nada agradável sobre situação similar com um ente querido em Londres. Lá, não era possível obrigar-se a um tratamento. Toda assistência só poderia ser dada de forma consentida pelo doente. Não se considera que a pessoa viciada pode não estar em condições de tomar esta decisão. E píor: a família não tem ingerência alguma. Pode ser que a família de Amy também tenha tentado. Pode ser.
No meu caso particular, felizmente, conseguiu-se trazer o doente para o Brasil, e aqui a família foi ouvida no seu papel, e seu empenho foi crucial para a recuperação da pessoa até então viciada. Tivesse ficado por lá e o final teria sido o mesmo de Amy. E tinha só 25 anos!

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