Nunca mais haverá noite como aquela de 67


O longametragem “Uma Noite em 67” é uma jóia da memória nacional. Não só da Música Popular Brasileira, mas também da televisão.A história dos shows ao vivo começou ali.
Se nos anos 2000 a Internet quebrou a indústria da música, no fim dos anos 60 foi na TV, em sobreposição à Era do Rádio, que se içavam as canções e os ídolos que iriam arrebatar as multidões. E que composições!
Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, o documentário que estreou no cinema em julho último promove um merecido resgate desta era de ouro dos festivais de música na televisão. O prato principal é a grande final do III Festival de Música Popular da TV Record. As imagens da época são preciosidades, felizmente resgatadas em boas condiçoes técnicas entre o tanto que se perdeu com aquele impossível incêndio dos acervos da Record nos anos 80. Tomadas do programa que foi ao vivo naquela noite para os telespectadores revezam-se no longa com depoimentos atuais e em cores daqueles monstros sagrados - que nem sempre se lembram bem daquilo que podemos conferir nas imagens em preto e branco na tela grande do cinema.
Há ali Chico Buarque de Holanda, com aqueles olhos que mesmo em preto e branco, ainda são azuis. E que leva um magnífico terceiro lugar com a não menos sensacional Roda Viva. Detalhe: os backing vocals eram do MPB4. Chico Buarque de smoking, cantando versos absurdamente subvertidos naqueles anos de chumbo. O contraponto é seu depoimento atual, um senhor de fala brincalhona e sorriso maroto, assim como a do rapaz que aos 22 anos deu entrevista a Blota Jr. e Cidinha Campos nos bastidores, de cigarro na mão. E o repórter também fumava no ofício, num saguão de intervalo onde todos passavam para falar com a imprensa, no que mais se parece hoje com a zona mista no pós jogo do estádio de futebol.
O filme abre com o vencedor da noite de gala: Ponteio, dueto na voz de Edu Lobo e Marília Medalha, numa performance emocionante. Clássico também é o momento de explosão de Sergio Ricardo, certamente o mais radical dos participantes, em atitude que o rock and roll celebraria por meio de ícones como Jimi Hendrix ou Curt Cobain, somente anos mais tarde. O mais interessante é saber do artista atual que jamais houve arrependimento sobre aquele ato um tanto impensado e que o marcou por toda sua carreira.
Incrível também é observar o know how de transmissão do espetáculo; as câmeras ágeis, captando a reação da platéia e dos crooners sob vários ângulos. De certo trabalharam ali, nos festivais da Record, os primeiros melhores câmera man da TV brasileira, bem como os melhores editores de shows ao vivo, já que os cortes eram dos mais precisos.
Caetano Veloso, de gola rolê e com o eterno paletó xadrez, surpreendeu com a magnífica “Alegria, Alegria”; e seu quarteto de apoio fazia o estilo Beach Boys – e não é que eram todos músicos argentinos??!
Gilberto Gil, maroto, teve companhia dos Mutantes, com uma linda Rita Lee de pernas de fora, para a quase barroca “Domingo no Parque”. Foi a vice-campeã de uma noite, que ainda teve um jovem quase rebelde Roberto Carlos. Que concentração de talentos por metro de palco! Saíram dali as grandes letras da canção brasileira e milhões de discos vendidos por décadas a fio.
Deslumbrada que fiquei com este longa, perguntei à minha mãe se ela não teria assistido a esta maravilhosa final do festival, naquela noite de 1967. Ao que me respondeu que não poderia, jamais, porque era 21 de outubro e ela estava reclusa na maternidade, pois era a noite do dia em que eu nasci!

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